Em recente experiência, o projeto “mínimas poéticas” levou até as escolas do ensino médio e faculdades de Foz do Iguaçu a discussão sobre os caminhos e descaminhos da poesia. Entre outras atividades, uma palestra-oficina levantou as várias dificuldades que a poesia enfrenta para se tornar um hábito das pessoas. Pelo contrário, ela está cada vez mais escassa no cotidiano da vida contemporânea.
Entre os fatores que contribuem para isso estão a falta de hábito da leitura em geral; o entretenimento fácil com o advento da mídia eletrônica sistema; o preço elevado do livro; a concepção errada de que a poesia ainda é apenas lírica; a forma de se ministrar as aulas de literatura, transformando a poesia em uma matéria escolar. A esses fatores, se juntam outros dois: por um lado, com as inúmeras edições independentes, o derrame de obras mal acabadas, sem nenhum critério de edição e, por outro, com a restrições das editoras ao gênero poético, as obras escritas mais para a critica literária acadêmica do que para o público leitor comum e mortal.
Em nenhum momento, porém, não sei se verdadeiramente ou apenas para não prolongar a conversa, foi levantado o fator da poesia ser um segmento artístico em decadência ou sem sentido. A maioria das pessoas vêem sentido na “arte de escrever versos”, mas um fato curioso é que, em muitas oficinas, a palavra “complicada” foi usada pelos jovens para definir a poesia.
Várias são as manifestações poéticas através de outros meios que não seja o livro propriamente dito, como em jornais, revistas, camisetas, cartazes, muros, cartões postais, internet, entre outros. Isso se deve pelo fato de que a poesia é inerente ao homem, como qualquer outra manifestação artística. E mais, ela é a forma de linguagem mais aprimorada que o ser humano conseguiu desenvolver, por isso, enquanto existir a espécie humana, a poesia fará parte de seu mundo.
Mas, esses meios “alternativos” apenas divulgam a poesia. Para o mercado, um fator é predominante: o livro de poesia, se tornando um produto, deve dar retorno financeiro. O que não acontece, quase sem exceções, com esse gênero da literatura.
Pensar é perigoso - Todos os fatores levantados para tentar explicar o baixo consumo de poesia em nossos dias, são fatores ligados ao hábito da leitura de uma forma geral. No entanto, o gênero prosa ainda cativa uma parcela, apesar de pequena, do público leitor. Por que isso acontece? Essa foi uma das perguntas lançadas durante as oficinas e a resposta foi quase sempre a mesma: “ela é mais complicada!”.
A prosa, enquanto gênero literário, tem a vantagem de poder ser encarada também como entretenimento. O romance, o conto e a crônica, por mais artifícios e figuras de linguagem que usem, por mais complexos que sejam os textos, possuem enredo, lógica temporal, personagens e contam com o envolvimento do leitor com a trama. Vantagem não oferecida pelos versos. Que fique claro que essa vantagem não interfere na avaliação do valor artístico da obra literária escrita em prosa. O gênero continua lançando no mercado algumas obras ótimas e outras pavorosas.
A palavra “complicada”, tão usada pelos estudantes durante as oficinas, se reveste do conceito de “complexa, de difícil interpretação”. E esse é justamente o entrave que a poesia enfrenta nos dias modernos. No atual sistema social, econômico e político não há espaço para complexidades, interpretações, interrogações e coisas desse tipo. Vivemos a época do descartável, do fast food, da loucura da linha de produção. “Nós produzimos pra consumir, ou consumimos pra produzir?”. É difícil responder a essa pergunta.
Na indústria cultural, isso não é diferente. O produto cultural, o artístico e o de entretenimento se confundem cada vez mais e, na linha de produção dos descartáveis, a poesia não encontra espaço.
O ato de pensar, interpretar, avaliar, aprimorar o senso crítico, ameaça de morte o atual sistema que tende, numa atitude de autodefesa, desestimular o seu consumo. Uma das leis do capitalismo é a “lei da oferta e da procura”, ou seja, quanto maior a procura por um determinado produto, mais ele será ofertado. Mas, nas entrelinhas dessa lei, o sistema pode eleger certas procuras, principalmente através dos veículos de comunicação de massa, e descartar outras. A poesia está entre as procuras descartadas e, portanto, ofertadas cada vez mais timidamente pelo mercado.
O papel do poeta – Nessa situação, qual seria o papel do poeta? Aceitar a situação, continuar a escrever versos para guardá-los nas gavetas? Sair batendo de porta em porta, procurando um mecenas, publicar livros independentes e transformar-se em camelô? Conhecer a filha de um editor e casar-se com ela? Talvez sejam opções individuais, mas não são as que mudarão esse quadro poético adverso.
Antes de tudo, o poeta deve assumir sua condição de poeta. Não como diletante, mas como profissional. Deve encarar a poesia não como passatempo, mas como ofício. Quantos dos que se dizem poetas, ao responder a pergunta “profissão?”, tem a ousadia de responder “poeta!”. Poucos, exatamente porque não sentem verdadeiramente que a poesia pode ser encarada por alguém como realização profissional.
Em um de seus poemas, Cassino Ricardo define bem o desafio dos poetas: “Que é um poeta?/ Um homem/ Que trabalha o poema/ Com o suor do seu rosto/ Um homem/ Que tem fome/ Como qualquer outro/ homem”. É justamente esse o fazer do poeta que pretenda a profissão: o suor, o trabalho para se aperfeiçoar. Nesse fazer se inclui o ato de estudar, de conhecer a língua, as formas e escolas poéticas, as figuras de linguagem, de ler e reler, de escrever e rescrever quantas vezes forem necessárias. Tudo isso tendo que cumprir uma dupla jornada de trabalho, antes de se profissionalizar enquanto poeta.
Assim, o livro de poesia não pode ter somente o caráter de um amontoado de poemas amarelados, engavetados durante anos, que foram reunidos em uma brochura, numa produção independente, para satisfazer o próprio ego.
Leitores propensos ao consumo da poesia se espalham pelos quatro cantos do território nacional, formando uma teia quase que invisível, mas de extensão proporcional ao tamanho do país. Atingir esses consumidores não é tarefa fácil, principalmente quando se tem que ultrapassar a barreira mítica de que a poesia é escrita e deve ser consumida por pessoas iluminadas, mas parece ser a única saída para a formação de um mercado consistente e rentável para a poesia, enquanto “ produto artístico” e não apenas enquanto uma das “belas artes”.
Isso também vale para os “escrevedores de versos” que se disseminam por todo o Brasil e que não lêem poesia. Se pretensos poetas não se tornarem consumidores de poesia, quem se tornará? Deixem o “medo de poesia” para os senhores que controlam a ordem imposta.
Carlos Luz é poeta, ainda não profissional
envio gabriela piccini